Homenageada no Congresso, Daniela Mercury reclama ter perdidos direitos ao se casar com mulher

"Eu era casada com homens e quando casei com Malu, perdi todos os meus direitos", lembrou, citando como exemplo a questão dos nomes das mães no RG dos filhos.


Por Folhapress Publicado 24/06/2019
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Reprodução (Divulgação)

Daniela Mercury, 53, e sua esposa, Malu, 42, estiveram no Congresso Nacional na manhã desta segunda-feira (24) para serem homenageadas em sessão solene pelos 50 anos da revolução de Stonewall nos EUA, realizada pela comunidade LGBT contra a invasão da polícia em 1969 ao bar Stonewall Inn, em Nova York. A sessão foi transmitida para o público pela TV Câmera.

Na ocasião, Daniela disse que se sentia honrada em falar pela comunidade LGBTQ+, e lamentou a falta de direitos, mesmo estando vivendo dentro de uma democracia.

“Eu era casada com homens e quando casei com Malu, perdi todos os meus direitos”, lembrou, citando como exemplo a questão dos nomes das mães no RG dos filhos.

“Vocês entendem a inversão? Que loucura. Como as pessoas não têm seus direitos básicos contemplados? Como, dentro de uma democracia, deixamos isso acontecer?”

Malu pontuou: “São coisas pequenas, simples, que parecem inofensivas, mas que causam um profundo constrangimento à nossa família, à nossa comunidade LGBT”.

Daniela, que se apresentou neste domingo (23) na Parada LGBT+ em São Paulo, disse que “não existe argumento para homofobia” e incentiva a celebração do orgulho de “sermos quem somos”.

Ela aproveitou para dizer que a Parada mostra como a sociedade está mais atenta, demandando que os políticos ajam e criem politicas públicas que contemplem toda a população brasileira. “Não é fácil para nós, ativistas LGBTs, trabalharmos o ano inteiro, fazermos as coisas acontecerem. Precisamos de muitas rebeliões, muitos ‘stonewalls’, esse movimento contínuo na sociedade, para que a democracia se efetive e equalize o direito de todos”, disse.

A cantora ainda afirmou que sempre se sentiu livre, e que hoje se vê “maravilhosa, uma lésbica inteligentíssima, talentosa e de sucesso”. Em contraponto, lamentou que tenha escutado por anos que a homossexualidade é uma doença, um pecado, ou simplesmente que “não é certo”. “É certo sim, e eu sou muito feliz”, disse. 

“Que cada um comece a lutar para quebrar as paredes construídas pela sociedade, principalmente sobre o amor próprio. Nos marginalizaram, e continuam a fazer isso à luz do dia, num país democrático”, disse. “Vamos continuar a pressionar”.

Ao final, emocionada, Daniela convidou os presentes a ficarem de pé e entoarem “Canto Da Cidade”. “A gente tem que se celebrar. […] Obrigada pelo esforço, pelo sofrimento. E desculpe pelo sofrimento que tantos passaram ate hoje”.

Malu também falou com os deputados presentes, dizendo que nunca foi uma opção viver escondida. “Nunca foi uma possibilidade de vida, viver nas sombras. E poucos meses depois que estávamos juntas, anunciamos para o mundo, através do Instagram dela [Daniela], que estávamos casadas no nosso seio, no nosso sentimento mais profundo. Mas a gente não podia se casar como todos os casais heterossexuais podiam”.

Ela disse que, depois, as duas conseguiram se casar no civil, e que, apesar de não precisarem daquilo, “o casamento foi um ato político”. No ato, as duas escolheram manter os sobrenomes de suas mães -Verçosa, da mãe de Malu, e Mercury, da mãe de Daniela.

“É preciso fazer leis específicas que garantam a criminalização da homofobia”, pediu. “É a partir das instituições públicas que as privadas começam a agir. Que a agente tenha os mesmos direitos que os casais heterossexuais”.

Por fim, ela fez um pedido aos deputados presentes, para que enxerguem e protejam os LGBTs, e finalizou beijando a esposa.