‘Cães do Espaço’ abandona fofura para mostrar animais de rua e cachorros usados na corrida espacial

Lambidas e biscoitos são substituídos por centrífugas e sensores implantados nos cães vistos no filme, forçados a doar seus corpos à corrida espacial.


Por Folhapress Publicado 21/10/2019
Ouvir: 00:00
Reprodução (Divulgação)

 Esqueça “Marley e Eu”, “Beethoven: O Magnífico” e “101 Dálmatas”. Trapalhadas e fofices não fazem parte de “Cães do Espaço”, coprodução entre Alemanha e Áustria que integra a 43ª Mostra de Cinema. Lambidas e biscoitos são substituídos por centrífugas e sensores implantados nos cães vistos no filme, forçados a doar seus corpos à corrida espacial.

A história desses cosmonautas de quatro patas é narrada no documentário, que inicia sua narrativa dizendo que, após sua morte durante uma missão, a cadelinha Laika deixou seu espírito vagando pelas ruas de Moscou, seu lar antes de ser recrutada pelo governo soviético nos anos 1950.

Por causa da lenda, a dupla de diretores Elsa Kremser e Levin Peter tomou para si a tarefa de acompanhar diversos cães que atualmente habitam a capital russa para investigar se Laika ainda paira pelo ar.

Com a câmera no nível dos olhos dos animais e com a máxima discrição possível, os jovens cineastas passaram, ao lado de outros três membros da equipe, 12 semanas filmando a rotina de seu elenco peludo.

“No fim só usamos as últimas cinco semanas de gravação”, conta Kremser, “porque antes disso os cachorros prestavam atenção nas câmeras e nossa intenção era que eles não a percebessem”.

Entre mordidas e brincadeiras, combinadas a imagens de arquivo do programa espacial soviético, os diretores buscaram entender como animais um dia tornados heróis nacionais voltaram à hostilidade e ao abandono das ruas.

“Nós queríamos fugir dos contos de fadas e filmes da Disney, em que os animais são bons ou ruins. Queríamos retratá-los como humanos, com temperamentos diferentes.”

E, nessa tentativa, capturaram os cães em momentos de simpatia, agressividade, solidão, cansaço e descontração, em um vaivém de imagens do presente e da década de 1950.

No Brasil para a Mostra, a dupla tem um carinho especial pelo país. No caso de Peter, foi por aqui, há 13 anos, que ele tomou a decisão de seguir carreira como cineasta. Ele veio a São Paulo com um amigo  para filmar o trabalho de dois vizinhos em um hospital infantil. Até que se deparou com o edifício Prestes Maia.

“Por acaso nós achamos esse grande prédio ocupado e soubemos imediatamente que ali havia uma história para contar”, diz Peter, que na infância tinha medo de cachorros.

A viagem deu origem ao curta “Prestes Maia”, exibido na televisão alemã. No atual retorno ao Brasil, ele visitou alguns dos personagens que capturou com sua lente.

Sem precisar ser questionado, o cineasta lamentou a situação da cultura no país sob a gestão Bolsonaro. “Tenho uma conexão muito grande com o Brasil e estou acompanhando essa guinada ao conservadorismo e como isso machuca o cinema daqui, que eu adoro.”

Ele diz se inspirar no cinema nacional e cita títulos como “Boi Neon”, “O Som ao Redor” e “Baronesa” como alguns favoritos. “Os cineastas brasileiros entenderam o realismo mágico e o tomaram para si”, diz, comparando essa interpretação a seu próprio “Cães do Espaço”, envernizado por uma aura fantasiosa, como se seus personagens caninos estivessem prestes a decolar.