31 de março de 2020

Daniela Mercury leva dança e atuação aos seus blocos e critica machistas

Com uma série de referências e homenagens à cultura brasileira, o Carnaval de Daniela Mercury, neste ano trará como proposta a dita "Arte e Resistência".


Por Folhapress Publicado 20/02/2020
Reprodução (Celia Santos\Facebook Daniela Mercury/Divulgação)

Inspirado em seu novo álbum “Perfume”, lançado em janeiro deste ano, o Carnaval de Daniela Mercury, 54, chega com sete blocos espalhados entre Bahia e São Paulo.

Pelo quinto ano consecutivo, a baiana se apresentará na rua da Consolação com setlist que inclui “Triatro”, música da cantora dedicada aos paulistanos. O artista plástico Iuri Sarmento vai pintar o corpo de Daniela e suas bailarinas em homenagem aos pintores do Brasil. 

Com uma série de referências e homenagens à cultura brasileira, o Carnaval de Daniela Mercury, neste ano trará como proposta a dita “Arte e Resistência”. Em entrevista à reportagem, a cantora falou sobre seus últimos lançamentos, feminismo e diversidade sexual.

P– Como você faz para manter a empolgação nessa época do ano?
DM – Eu amo o Carnaval e eu crio espetáculos diferentes para cada dia. Isso me empolga muito. O Carnaval, para mim, é uma estreia atrás da outra, é adrenalina pura. Vou cantar com vários convidados, dançar com meus bailarinos e com o balé do projeto Axé, além de atuar com o elenco de “Sonhos de uma Noite de Verão” na Bahia e fazer performances com obras dos artistas plásticos J. Cunha e Iuri Sarmento. Vão ser quase 50 horas de folia. Mas o que me move mesmo é a paixão e a possibilidade de trazer mensagens importantes através da minha arte.

P – E quais cuidados você tem com a saúde nesse período?
DM – Para manter a saúde tomo muitas vitaminas e me preparo fazendo exercícios de pilates, hidroginástica e descansando dentro do tempo que me resta. Minha rotina fica muito mais intensa. Eu sinto muita dificuldade para dormir. As músicas e as ideias não saem da cabeça. Eu acordo várias vezes de madrugada, ansiosa pensando nos figurinos, nas coreografias, nos cenários e performances para o Carnaval. E durante meses, faço muitos ensaios com bailarinos, músicos, artistas plásticos, figurinistas, estilistas e cenógrafos. 

P. – Você, como mulher num relacionamento lésbico, sente que representa as minorias? 
DM – Sim, sou representante de minorias políticas como cidadã, embaixadora do Unicef e campeã da igualdade da ONU junto com Malu. Como artista, uso minha voz e me manifesto sempre. Atuo onde sinto que posso fazer diferença. 

P. – Como enxerga o avanço de pautas como o feminismo e a diversidade sexual nos últimos anos no Brasil?
DM – Vejo como um avanço necessário e muito positivo. Há tanto para fazer que há pautas para uma eternidade. Nossas sociedades ainda são extremamente injustas e violentas com as minorias e salvar vidas é urgente. Temos que mudar a cultura da violência e para isso é preciso muita força, informação e persistência. Avançamos nas causas LGBTQIA+ e estávamos indo muito bem, mas com a atual política brasileira, a misoginia, a homofobia e o racismo parecem ganhar força, fazendo aumentar a violência contra as mulheres e contra os LGBTs, por exemplo. Mas isso faz com que a gente trabalhe muito mais! Somos muitos, estamos juntos, somos resistência! Minha arte é resistência. 

P. – Você acha que o Carnaval tem sido mais inclusivo com a diversidade de corpos?
DM – Há um movimento da juventude por mais respeito à diversidade de corpos e esse avanço se reflete sim no Carnaval. É um super avanço as mulheres se sentirem livres, empoderadas e lindas em todos os corpos. O Carnaval é uma festa onde muitas tribos urbanas distintas se encontram. São como muitas cidades diferentes que não se veem durante o ano, mas que, no Carnaval, dançam juntas no mesmo bloco. Isso é muito revolucionário para mim e quebra as paredes da discriminação. A música humaniza! Eu canto, peço paz, respeito, gentileza, fraternidade e muita alegria. Espero que as leis contra o assédio, contra a homofobia e as campanhas educativas e a felicidade criem um ambiente de mais respeito e amor no Carnaval, se refletindo, claro, no respeito à diversidade de corpos de nós, mulheres.

P. – Como foi a experiência de gravar com o projeto Quabales e a Preta Gil? O que essa música transmite, na sua opinião?
DM – O Quabales é um grupo de jovens talentosíssimos que faz um trabalho artístico muito original. A música “Balacobaco” é uma música feminista, por exemplo. O Quabales é uma ONG que nasceu dentro da favela e com a arte gera oportunidades para jovens. Estou com eles desde o início e gravar com Preta foi maravilhoso para reforçar tudo isso. Eu e Preta temos uma visão de mundo muito parecidas, nos damos bem, temos afinidade. Foi um prazer enorme dividir música e videoclipe com ela e com o Quabales. 

P. – Qual Carnaval você prefere, entre Rio, São Paulo e Salvador?
DM – Eu amo o da Bahia e sou muito fã do Carnaval de todas as maneiras. Amo as escolas de samba, mas o Carnaval de rua é minha grande paixão. É uma manifestação espetacular e espontânea como a sonhada “Revolução Caraíba”, de Oswald de Andrade. É a maior ocupação política cultural do Brasil e uma das mais importantes do planeta. E preciso confessar: São Paulo tem um lugar especial no meu coração folião! Resumindo: amo o Carnaval das três cidades (risos).

P. – Tem acompanhado o BBB?
Acompanhei os acontecimentos sobre o Petrix e, como acontece no Carnaval, homens machistas e homofóbicos não passarão e vão ser expulsos dos blocos como estão sendo expulsos do BBB. Eles que lutem! Feliz Carnaval para quem sabe respeitar os outros.