04 de August de 2020

Sabrina Sato faz ensaio com fantasia de cordas; veja como prática erótica ganhou status de arte

Apesar do apelo erótico de hoje em dia, o shibari tem como origem a prática marcial Hojojutsu, praticado por samurais no Japão. "As cordas serviam para restringir os movimentos do inimigo e também como forma de tortura".


Por Folhapress Publicado 21/02/2020
Reprodução (Divulgação)

O shibari, prática erótica de amarrar o parceiro, que já ganhou status de arte no exterior, começa a se transformar também no Brasil nas mãos de artistas como Amauri Filho, 32. 

Apresentado à prática por curiosidade, ele passou a fazer ensaios fotográficos, criar visuais até começar a ser chamado para trabalhos mais pontuais, como o que fez com Geisy Arruda e com a apresentadora Sabrina Sato. 

Apesar do apelo erótico de hoje em dia, o shibari tem como origem a prática marcial Hojojutsu, praticado por samurais no Japão. “As cordas serviam para restringir os movimentos do inimigo e também como forma de tortura”, conta Amauri Filho.

“Os samurais deixaram de existir como guerreiros e passaram a se dedicar a trabalhos artísticos.” Das gravuras eróticas japonesas, destacou-se a ilustração ‘O Sonho da Mulher do Pescador’, de Katsushika Hokusai, fez a conexão das cordas com a arte.

Amauri Filho procura dar identidade brasileira a uma cultura que veio da Europa. Ele chegou ao shibari pela pornografia e se apaixonou pela beleza das cordas. Começou a praticar em si mesmo para entender a técnica das amarrações, com a ajuda da mulher, Aileen Rosik.

Logo passou a cobrar por sessões de fotos em seu estúdio e foi construindo seu estilo. “O Brasil não tem a sua cena, nós importamos de outros países, principalmente a Alemanha e Estados Unidos, por isso o visual é sempre escuro, com muito couro, vermelho”, afirma o artista.

Ele fez cursos e conheceu profissionais que pensam como ele, como o fotógrafo Fabio DaMotta, que faz ensaios com flores, e a artista espanhola Pauline Massimo, e pensou em conceitos mais leves e diversos. “Sempre se pensa em um homem branco na posição de dominador e é mais comum ver mulheres como submissas. É preciso incluir na discussão as pessoas trans, as não-binárias, por exemplo”, afirma Filho. 

O artista também questiona a própria questão de submissão e busca desmistificar os padrões de corpo. “Será que é preciso mandar ou dar o tom de escravidão e servidão? Não seria melhor pedir algo ao parceiro?”, questiona ele. Para Filho, também não é preciso ser magro para ser amarrado. “Todos os corpos são aceitos e possíveis.”

Ao publicar suas primeiras fotos no Instagram, Amauri Filho se aproximou de outras pessoas e profissionais. Ganhou destaque ao fazer fotos com Geizy Arruda, que havia acabo de escrever um livro de contos eróticos. “Foi legal que ela tem um público bem vasto, de várias bagagens. Muitos escreveram para criticá-la e ela defendeu bem o ponto de vista dela, falou de machismo”, conta o artista. 

Do contato com DaMotta, Amauri Filho conheceu Pedro Salles, estilista de Sabrina Sato que o convidou a fazer um ensaio com a apresentadora. “Fiquei no estúdio das 10h às 4h da manhã, e ela ainda tinha mais fotos a fazer. Logo depois, pediram pra eu levar cordas vermelhas para compor o visual dela para um ensaio na Gaviões da Fiel”, conta o artista.

Amauri Filho também já fez looks para integrantes de blocos de Carnaval que o procuraram e pensa em usar o shibar em roupas. As cordas podem ser tingidas e a variedade de cores não é um problema. A ideia, no entanto, não seria fazer um produto em escala. “Há várias questões a serem estudadas. A corda tem uma vida útil porque a gente amarra no corpo da pessoa e depois desamarra. A fibra natural é usada porque o contato com a pele é bem direto e machuca e é preciso que cada peça seja personalizada, porque cada corpo é um corpo.”

O maquiador e designer Rodrigo Costa, que foi muso do bloco da Sabrina Sato em São Paulo, fez um ensaio com Amauri, com cores alegres por gostar da forma como o artista liga o shibari a moda. Costa leva para o Carnaval o debate de que o homem também pode mostrar o bumbum e ser sensual nas ruas e conheceu o trabalho de Filho pela Sabrina.

“De alguns carnavais para cá, comecei a pensar: por que só as mulheres são musas? As mulheres podem mostrar os seios, e os homens podem mostrar o bumbum. Então, eu e um amigo chamado Jean sempre nos fantasiamos iguais e passamos um pouco do universo feminino”, conta ele.

Para este Carnaval, ele queria fazer um ensaio fotográfico bem profissional e optou pelo shibari. “Usamos cordas com cores mais leves e adocicadas. A gente até queria usar para os blocos de Carnaval, mas ainda não dá porque as cordas machucam e a gente não ficaria tão à vontade”, explica o maquiador. “Aproveitei as cores que eles escolheram e dei um jeito de criar um efeito chiclete, que valorizou o tônus muscular dos modelos que também era a proposta”, explica Filho. 

Para falar sobre a prática do shibari, Filho já fez alguns vídeos para o canal do YouTube do SexLog, rede social de sexo e swing. “Estamos programando agora uma série de vídeos chamados ‘Me Amarra’ para esclarecer dúvidas sobre a prática e explorá-lo também de forma artística.”