Entenda como Vera Fischer virou ‘Veraflix’, rainha do Twitter e também dos NFTs

"Tudo que está ligado à arte é comigo mesmo", diz Fischer, explicando seu crescente interesse pelos NFTs, nicho que ainda é visto como alienígena para muitos artistas e entusiastas do setor.


Por Folhapress Publicado 10/03/2022
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Reprodução: Divulgação

 Vera Fischer nunca havia tido um celular até o início da pandemia. Nada de ligações a distância, grupos de WhatsApp, selfies no espelho, ou uma barra de notificação agitada –tudo bem diferente de sua vida atual, que, no auge de seus 70 anos, sustenta um status semelhante ao de blogueirinha.


Se antes a atriz não tinha nenhum contato com o universo digital, hoje ela não só é uma usuária ativa das redes sociais, em que posta dicas literárias e de filmes, como também está cada vez mais envolvida com o mercado dos NFTs, os tokens não fungíveis que movimentam milhões de criptomoedas e são a nova febre do mercado artístico.


Em cartaz no teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, com a reestreia de “Quando Eu For Mãe Quero Amar Desse Jeito”, Fischer contou a esta repórter que planeja vender virtualmente quase 200 quadros de sua autoria –produzidos desde 2006– usando a tecnologia blockchain, que associa códigos alfanuméricos a conteúdos como imagens, vídeos e músicas, postos à venda com um certificado de autenticidade digital.


“Tudo que está ligado à arte é comigo mesmo”, diz Fischer, explicando seu crescente interesse pelos NFTs, nicho que ainda é visto como alienígena para muitos artistas e entusiastas do setor. “É uma questão de escolher o melhor produto. Quanto mais novidades surgem, mais chances há de ganhar dinheiro.”


Com mais de cinco décadas de carreira na TV e no cinema, Fischer foi demitida da Globo, em junho de 2020, ao lado de estrelas como José de Abreu e Miguel Falabella. Desde então, tem trabalhado em filmes e séries de streaming, peças online e presencial, leituras dramáticas, websérie, propagandas publicitárias e projetos como a venda de quadros em NFT –ainda sem data definida.


No ano passado, a atriz anunciou um leilão –também em NFT– de uma fotografia de 1976, registrada por Bubby Costa, em que aparece numa pose sexy, coberta de lama e debruçada sobre um galho de uma árvore, num pântano.


Fischer diz que a notícia do leilão, que, segundo o site da revista IstoÉ, tinha o valor de lance mínimo de R$ 447 mil, chegou até mesmo à Rússia, mas a foto não foi vendida porque fará parte de outro projeto em breve, com detalhes ainda em segredo. “É uma foto concorrida”, diz ela. “Desde o ano passado, está rodando pelo mundo.”


Entre os quadros que deseja pôr à venda online, está “Mulher²”, coleção de retratos com várias faces e facetas femininas, com desenhos como a de um grande rosto maquiado que se inclina para observar as águas de uma piscina no meio da escuridão.


“São mulheres múltiplas, elevadas à sua potência, multiplicadas sucessivamente por si mesmas. São também vítimas enquadradas em parâmetros sociais historicamente machistas e violentos”, diz Fischer, que planeja, além da venda digital das obras, uma exposição das telas.


“Maquio as minhas mulheres [dos retratos], boto o blush nas bochechas, pinto os cílios, as sobrancelhas e a boca. Gosto dos olhares que faço para elas. Algumas olham para o alto procurando por algo, outras para baixo, com vergonha, ou para o lado, desconfiadas. Outras até olham diretamente para mim como quem diz ‘estou aqui'”, afirma a atriz, que define as moças dos desenhos como “jovens, maduras, sonhadoras, elegantes, inocentes e sedutoras”.


Fã de nomes como Henri Matisse, Joan Miró e Piet Mondrian, a artista diz que desenvolve suas obras a partir “das loucuras de sua cabeça”, que também deram fruto a direção de filmes trash como “Sangria Desatada” e dez livros que escreveu na última década e, só agora, planeja publicar.


Sua demissão da Globo em meio ao caos pandêmico trouxe dolorosas doses de instabilidade mental. É o que afirma ao relembrar o isolamento social, período em que sentia pouca fome, emagreceu bastante e adoeceu de desânimo.


“De repente, os trabalhos foram sendo cortados. As pessoas morrendo e o país ficando à deriva. Temos um presidente que não queria vacinar ninguém, falava mal da vacina e defendia a cloroquina.” Diante do sufoco emocional deixado pelo momento, Fischer conta que sua fase à la blogueirinha chegou como um respiro.


Isolada, comprou um celular para se conectar com o mundo e, desde então, troca mensagens com mais de 50 fã-clubes e posta selfies sorridentes, momentos marcantes de sua carreira, curiosidades sobre sua rotina e dicas culturais acompanhadas pela hashtag #VeraFischerIndica, o que rendeu a ela o apelido de “veraflix”, em referência à gigante do streaming Netflix.


“O meu Instagram existe desde 2015, mas, como não tinha celular, não postava nada”, diz ela. “Gosto de conversar com os meus fãs, postar sobre comida, escrever coisas da minha cabeça. Eles amam. Precisam de carinho e atenção.”


Mas Fischer também quer se comunicar para além de seus admiradores. “Em casa, tenho uma videoteca, com muitos filmes, de novos a antigos. Então, comecei a escrever sobre isso, porque é um assunto que me interessa. Quando as videolocadoras acabaram, comprei tudo. Também já garimpei muita coisa pelo mundo afora.”


Entre as dicas, há filmes como como “Casa Gucci”, de Ridley Scott, “Guerra e Paz”, de King Vidor, e “A Órfã”, de Jaume Collet-Serra. A atriz tem até um agendinha cinéfila para anotar a ficha técnica dos filmes que vê e indica. Tudo para publicar dicas com embasamento. “Tenho um caderninho especial. Faço a pesquisa ali mesmo.”


Fischer conta que varia as dicas, mas, claro, tem suas preferências. Filmes que são “o sucesso do momento”, por exemplo, não são prioridade. “Às vezes, eles não têm muito a dizer.” Há também artistas que chamam mais a sua atenção. É o caso da britânica Olivia Colman, de “A Filha Perdida” e “The Crown”.


Agora, de volta aos palcos depois de quase dois anos enclausurada, Fischer tem diminuído o ritmo das
“Tem sido maravilhoso. A gente é aplaudido de pé durante muito tempo”, diz a artista. “Embora tenha uma raiz no surrealismo, a peça é um humor ácido. É bem surpreendente. Nunca tinha visto nenhuma peça brasileira igual a essa, do Eduardo Bakr.”


Apesar das palmas e do sucesso que o espetáculo tem gerado, Fischer vem se deparando com alguns perrengues artísticos. “Fiquei muito mais furiosa depois que saí da Globo. Sempre trabalhei com teatro e cinema, mas agora estou mais aliada [a esses setores]. A gente leva muito pau porque é artista. Dizem que não prestamos e não somos necessários. Mas o povo precisa da arte. É o alimento da alma.”


“A gente precisa de incentivo. Não dá para continuar fazendo peça sozinha, sem patrocínio. Tem que tirar o dinheiro do bolso”, acrescenta. “Teremos eleição daqui a pouco e, se não soubermos votar, haverá o mesmo que aconteceu nesse período. E o Brasil só andou para trás.”

QUANDO EU FOR MÃE QUERO AMAR DESSE JEITO
Quando 11/3 a 17/4 (sextas e sábados, às 20h, e domingo às 19h)
Onde Teatro Clara Nunes – r. Marquês de São Vicente, 52, Rio de Janeiro
Preço De R$35 a R$70
Autor Eduardo Bakr
Elenco Vera Fischer, Larissa Maciel e Mouhamed Harfouch
Direção Tadeu Aguiar